"Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar" - Padre António Vieira

17
Jan 10

 

Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se
continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as
casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo
entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e
maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos
falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como
se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida. Como no hospital.
Dizia nunca esquecerei, e hoje lembro-me. Rostos tornados desconhecidos,
desfigurados na minha certeza de perder-te, no meu desespero desespero. Como
no hospital. Não acredito que possas ter esquecido. Enquanto esperava pela
minha mãe e pela minha irmã, as pessoas passavam por mim como se a dor que
me enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também. As mulheres falavam,
os homens fumavam cigarros. Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seres
incautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a
virmos, ela não nos verá. Esperavam. Num carro demasiado rápido, a minha
mãe, curvada de perder o que possuía, e a minha irmã. Os homens e as mulheres
falavam e fumavam ainda quando subimos. No quarto, numa cama qualquer que
não a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto e
amarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava o
seu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha. Aos pés da cama,
a minha mãe calada, viúva de tudo. À cabeceira, a minha irmã, eu. Cortinas de
plástico, biombos de banheira separavam-nos das outras camas. Pousei-te as
mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda
pele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao olhar amarelo,
ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamos
voltar para casa, pai; vamos que eu guio a carrinha, pai; só enquanto não puder,
pai; vá, agora está fraco mas depois, pai, depois, pai. Menti-te. E tu, sincero, a
dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai.
À hora, mandaram-nos sair. Quando saímos, agarrados como naúfragos, a luz
abundante bebia-nos.
publicado por hpmr-palavras às 22:10

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

publicado por hpmr-palavras às 22:10

VINTE POEMAS DE AMOR E UMA CANCAO DESESPERADA

publicado por hpmr-palavras às 22:05
música: http://www.youtube.com/watch?v=8YFxgEp2O6c

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